sábado, 23 de junho de 2018

Para sempre e um dia no MARP Museu de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto



















Encontros para rupturas - MARP Museu de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto

Convite ao público para intervir em desenhos que representam as capas de livros da biblioteca Pedro Manuel Gismondi, através da ação de rompe-los, materializando a apropriação pessoal do conteúdo daquele livro

















Biblioteca : Floresta - MARP Museu de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto













biblioteca: floresta
Curadoria: Galciani Neves, em parceria com Simone Moraes, artista em residência no MARP, durante o processo de desempacotamento da biblioteca de Pedro Manuel-Gismondi
Assistente de curadoria e produção: Isabella Assad
Expografia: Marcus Vinícius Santos
Design gráfico: Fernanda Porto
Edição e revisão de textos: Divina Prado
Artistas: Aline van Langendonck, Andrea Tavares, Fernanda Porto, Janina McQuoid, Laura Berbert, Lívia Aquino, Lucia M. Loeb, Maíra Dietrich, Mayra Martins Redin, Natalie Salazar, Paloma Durante, Raphaela Melsohn, Raquel Stolf, Regina Parra, Renata Cruz, Santarosa Barreto, Simone Barreto e Simone Moraes

Ensaio para começo de conversa: “deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção”[1]

Arrancamos frases para torná-las nossas próprias e desenhamos um problema. E traçar um problema, de maneira distinta ao que nos foi imposto historicamente, ao menos nas condições aqui sugeridas, dispensa convicções, comprovações e toda sorte de nota assertiva como desfecho. O que não pressupõe um falar sem jeito, esvaziado. Trata-se de um problema que acontece como devaneio, com tudo o que um devaneio pode ter de provocativo, de inevitável, de urgente. Escrevemos, então: devaneio – estado de combate contra o que quer nos paralisar. Devaneio – gesto nítido e incisivo de contestação no tempo e na vida cotidiana. Devaneio – para revolver tudo que nos miniaturiza a existência. Devaneio – soco em ponta de faca. Dito assim, compartilhamos um problema/devaneio: qual ação possível, qual letra possível, qual língua/corpo possível pode ser palavra, e, mais, pode ser narrativa conjugada no feminino?

Se toda a nossa formação discursiva reproduz e reafirma um sujeito autor sempre no masculino, a exceção (a citar: a nota de rodapé, o ínfimo espaço no fim do espetáculo ou uma espécie de generosidade vangloriada em historiadores e críticos ao fazer reviver “uma mulher brilhante, porém não reconhecida em sua época”) é o que nos foi “ofertado com dignidade”, um descarado prêmio de consolação para nos cerrar a boca. Ofertaram-nos também textos que – disseminados largamente e cujas fontes ainda mais amplas e tão retificadas, quanto retificadoras – definem e informam sobre um fazer literatura e, dentro da mesma lógica, acerca de uma produção artística, científica, política como êxitos indubitavelmente autênticos do agente que ocupa o topo da cadeia alimentar.

Mesmo ainda longe de desbancar inteiramente as boçalidades machistas que engendram os padrões de exclusão da mulher das forças e lugares de trabalho e uma já pressuposta eleição do homem como autor dos fazeres mais dignos de serem sublinhados, esse problema/devaneio desponta e alavanca-se em forma de desvio. São ressignificações subversivas e autorias radicais que se materializam nessa mostra como práticas narrativas, exercícios ficcionais, invenções tradutórias, fabulações, dizibilidades, apropriações do universo da bibliofilia, refeituras de texto, da matéria da palavra, do dito e não-dito em instâncias amplas, diversas, impuras, enfim, poéticas e pulsões criadoras de 17 artistas mulheres.

“Fico besta quando me entendem[2]” ou recusar a literatura do outro

A mostra biblioteca: floresta acontece no MARP inscrita nas obras de Aline van Langendonck, Andrea Tavares, Fernanda Porto, Janina McQuoid, Laura Berbert, Lívia Aquino, Lucia M. Loeb, Maíra Dietrich, Mayra Martins Redin, Natalie Salazar, Paloma Durante, Raphaela Melsohn, Raquel Stolf, Regina Parra, Renata Cruz, Santarosa Barreto, Simone Barreto e Simone Moraes. Onde nos reconhecemos parceiras, arquitetamos um lugar de encontro. E é nesse lugar de encontro, que também é de ebulição, de insistência e de perturbação, que criamos um ar possível para inventarmos o que está dentro, fora da palavra, em fluxo; e onde podemos sentir o inflamável embate arte/literatura.

A saber, nossas deambulações. Movimento 1: conversa-convite para adentrar os desdobramentos de uma biblioteca sendo desempacotada – o pó, a primeira palavra e a derradeira, escrita de terra, floresta de livros. Movimento 2: espiar em nossas próprias estantes e cabeceiras quem estamos lendo, um espelho implacável, um fundo de gaveta revelador – somos poucas entre nós mesmas. Movimento 3: o que perseguimos quando estamos pensando em literatura, ficção, narrativa, poéticas artísticas, lugar de fala?

Sugerimos, então, que pensemos na ideia de explosão, seguida de borramento. Uma tentativa de negar as categorizações de linguagens e abrir-lhes linhas de fuga, sair de um lugar para outro, destituir as fronteiras, e, assim, desestratificar suas geografias. Mover-se ao mesmo tempo em que se movem as coisas e espaços em torno de si. Arte/Literatura: uma labuta hibridizante, que aniquila limites ao passo que mantém comunicantes e transbordantes essas linguagens.

Em tempo, é preciso esclarecer que, em volta dessa vasta e plural contaminação de procedimentos, as obras apresentadas estão livres de qualquer tarefa instrumentalizadora, seja no campo da arte ou da literatura, e não carregam nenhuma intenção de elaborar uma gênese dos horrores de nossas privações (destas já bem sabemos e seguimos juntas, em alerta). Ainda assim, podemos nos arriscar a pensar que, atravessando essas autorias, há uma modulação comum e constituída subjetivamente: desmandar o esquema de dominação e exclusão que nos colocou à margem e arquitetar junto com o público inquietações acerca de e para além de um problema feminino/feminista[3]. A vontade é: agir na margem e em outras tantas, infiltrar e gerar frestas no epicentro, navegar em direção ao embate contra as brutalidades patriarcais e masculinizantes, tendo a arte e a literatura como prática em que nos arriscamos entre a falha e a potência.

Violar e dar-se à luz: “reacender as chamas latentes da escrita”[4]
Olhando-nos de frente, os pensamentos insinuam-se em alguns campos de procedimentos: invenção de uma escrita, quando o silêncio é fala ou o texto é coreografia/procedimento do corpo, percepção e relato de um lugar/experiência ou ainda matéria-prima manuseável; rasurar, deglutir, esquartejar e apenas ter o livro, quando ações evidenciam o livro como contêiner da literatura, a ser fragmentado, apropriado, recalculado ou quando exteriorizam o texto para além desse espaço; deslocar a palavra, transmutar seu contexto, como não-resposta ao autor, como teima, como audácia ou assassinato da literatura.

Assim, as artistas construíram fendas no gozo da linguagem literária, ora negando uma prática burocrática da tradição artística (pendular, enfadonha, devedora a sabe-se lá quem ou quê), que, assim, se orienta mais pelo fato de corroer e transgredir uma voz original e queimar seus restos; ora inventando a sua própria prática ficcional em tarefas estrangeiras à literatura (novamente, cabe aqui: explosão e borramento).

Quando negam: os gestos são de reconstituir tudo livremente à própria vontade e critérios, aderindo a irregularidades, vulgaridades, imprecisões; desfazendo os chãos seguros, arranhando as estantes e paredes onde figuram imóveis e sábios os livros e desnudando seus autores e ornamentos textuais. São inscrições de fratura crítica e interdição do autor. Não menos séria, tampouco menos rigorosa, há também que se discutir uma certa falta de pudor, como princípio criativo, que é propriamente o rigor dessa urdidura tradutória: crítica e criativa, “trans-tudo”, poética e política, como uma outra forma de (des)continuidade. Daí que se nega para fazer viver um outro instante de arte/literatura, pois até o que se supõe imitação é uma simulação que contraria o conteúdo e lhe dá como reação a mera ausência. Esses procedimentos são fatos imagéticos, que, talvez, nunca, em seus piores pesadelos, sonharam alguns desses autores citados/traduzidos nas obras: serem violados, vendo suas obras esquartejadas, refeitas, “re-editadas”.

Quando o gesto é de invenção: exercícios que ampliam a elementar matéria da escrita/leitura e duvidam do livro como sequência de espaços. Nesses processos de produção, parece não haver um primeiro ou autêntico substrato da literatura, mas o que interessa é inaugurar um fazer próprio, é esquecer que há formas reconhecíveis e praticadas no campo da arte e da literatura, é descontinuar a ordem que rege as normas de sobrevivência do texto. Assim, o texto, a narrativa, o gesto de ficção transborda para o espaço, perfurando poros e afetando os corpos.

Onde é possível arder, “nunca mais te disse uma palavra”[5]

Uma floresta é um ecossistema intrinsecamente inflamável: sua cobertura é rica em carbono, o clima seco pode afetá-la, raios e atividade vulcânica interpelam sua dinâmica. O fogo tem um efeito evolutivo na vida de uma floresta, renovando seu funcionamento e equilibrando o convívio entre as espécies. Um fantástico e minúsculo conto[6]:

A história de uma floresta traz consigo a história de sua sobrevivência ao fogo. Suas perdas arderam em chamas e se apagaram, plenas em seus sumiços. Nas cinzas, outras tantas árvores vieram. Quem está diante de uma floresta, confronta-se com uma estranha e dolorosa autonomia, com uma força autodestrutiva por livre arbítrio, um desejo incendiário sem culpa, um ímpeto arrasador de si. Daí, que uma biblioteca: floresta é uma zona selvagem e quente. Feita de seres perecíveis, que escapam ou não das ameaças corruptivas, do gesto desleixado à proibição da leitura. Vejam, é literatura, é narrativa, é ficção. E ler é ver tudo como ficção, é inflamável e pode queimar as suas mãos.

                                                                                                                


[1] Trecho de “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, 1928.
[2] Título do livro de entrevistas realizadas com a escritora Hilda Hilst, entre os anos de 1952 a 2002.
[3] Em linhas curtas, é preciso deixar claro: “A complexidade do conceito de gênero exige um conjunto interdisciplinar e pós-disciplinar de discursos, com vistas a resistir à domesticação acadêmica dos estudos sobre gênero ou dos estudos sobre as mulheres, e a radicalizar a noção de crítica feminista” (Butler, Judith P. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017).
[4] Trecho de “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, de Gloria Anzaldúa, 1980.

[5] Trecho de “Travelling”, de Ana Cristina Cesar, 1982.
[6] Entre os braços da imaginação e a memória, uma biblioteca: floresta pode rimar com muitas associações visuais, até oníricas. Não queremos destruir toda uma pluralidade de elucubrações, mas consideramos importante expor como essa ideia tornou-se uma flecha norteadora neste projeto de exposição.